. Ao defender o envelhecimento como processo de viver, não raro, eu
escuto: “você diz isso porque não é velho”.
Será que não sou também o velho, apesar de ter 38 anos
de idade cronológica? Será que estamos enganados sobre o tempo?
Envelhecer subentende atravessar o tempo. Viver é envelhecer, envelhecer é viver.
A vida gera, alimenta, consome, e nos entrega à morte. Durante o processo
de viver passamos por constantes ciclos de renovação. A cerimônia
de renovação nos propicia o envelhecer. Quanto mais vivermos,
mais velhos seremos. Todos conhecem a veracidade desse processo. A grande maioria
das pessoas não o aceita, porque querem equivocadamente o “modelo
de juventude eterna”. Ninguém pode escapar do processo natural
do envelhecer, como nenhum humano pode voar por si mesmo porque não é natural
voar. Nascemos com escápulas, mas elas são inábeis ao
vôo, por isso ficaram presas ao tronco. Essa é a nossa natureza.
Como todos sabem (mesmo que o nosso inconsciente não acredite), iremos
morrer indubitavelmente. Sendo assim, ninguém pode viver sem experimentar
a travessia, pois viver é fazer passagem. Como está escrito no
majestoso portão de Bulund Darwaza na cidade de Fatehpu Sikri na Índia: “O
mundo é uma ponte. Passe por ela, mas não construa seu lar nela”.
Por essa razão, é preciso lembrar de aproveitar a grande celebração
dos ciclos de renovação da vida cujo mestre de cerimônia é o
tempo.
Vivemos em duas instâncias temporais: Kronos e Kairós.
A cronologia estuda o tempo em suas divisões e ordens de ocorrência
de acontecimentos. Ela se referencia no modelo estático e analisável,
ou seja, no modelo fragmentado e parcelado. O tempo Kronos é o tempo
do relógio, um tempo-coisa com delimitações estanques
e escalas numéricas. Ele é o tempo do fazer, do poder como dominação,
das cercanias. Ele representa limites, é opressor, devorador de tudo
o que cria . Kronos rejeita a escolha do sujeito. Estabelece quem é o
mais velho ou o mais novo em termos numéricos, requer confirmação.
Assim, se tenho 40 anos de idade e você 20, eu sou o mais velho. Numericamente
serei sempre o velho de uma pessoa mais nova, como serei o mais novo de uma
pessoa mais velha.
O tempo cronológico é objetivo, referenciado em números,
contável. Sem dúvida, um número não traduz as idiossincrasias
de um ser humano, mas a organização de uma sociedade requer ordem,
certeza, constância, hierarquia. Nossa sociedade, por exemplo, foi construída
na premissa de “ordem e progresso”, como está escrito na
bandeira nacional. O positivismo lógico da expressão mostra que
sem ordem não há progresso. Em termos lógicos é possível
entender a expressão, porém no que diz respeito ao humano, à vida,
ficamos distantes de uma asserção coerente.
Mesmo que tentemos ordenar para controlar, cercar, delimitar, o que é humano
não pode ser medido, contado, estabelecido por regras estanques. Sem
movimento de passagem o humano não é humano. O que é vivo
só tem sentido quando é dinâmico. Assim, pela perspectiva
do humano que envelhece, não existe progresso na ordem, porque como
podemos ter progresso na repetição? Repetir é sofrer a
espera de nada acontecer. A repetição só corrobora a idéia
de que quem é velho não tem mais o que fazer, quem é novo
tem ainda muito pela frente. Quem disse que temos muito pela frente? Você poderia
responder: “é só saber contar”. Será que podemos
confiar tanto em estatísticas? O tempo Kronos torna os dias repetitivos
porque nada cria, torna os dias de espera longos e sem fim.
A Biologia da Evolução mostra que os fenômenos aleatórios
dos genes nos possibilitaram ser o que somos. Como podemos ir adiante com a
mesma estrutura? Se a espécie fosse sempre a mesma não poderíamos
evoluir.
Para evoluir são necessárias novas alternativas. Por isso, sem
renovar o aprendido continuaremos repetindo. Com a repetição
nada se cria, tudo se copia. Tudo continua sendo o que sempre foi. Assim, podemos
dizer que estar dentro das cercanias da ordem com relação às
pessoas acima de 60 anos de idade é manter a idéia de que o velho é velho,
problemático e pronto. Nunca saberemos o que fazer com eles. Será preciso
saber o que fazer com eles? Isso é poder como dominação
e não poder como possibilidade. O diálogo aberto é o caminho
para o poder como possibilidade. Quando podemos por meio de nosso poder gerar
poder no outro, formamos uma cascata interminável de feitos importantes
para a sociedade.
Não é necessário decidir pelos velhos acima de 60 anos,
a não ser que eles estejam demenciados, e não consigam tomar
as próprias decisões. Se prestarmos atenção, verificaremos
que as pessoas acreditam que o que as pessoas mais velhas falam é sem
sentido. Vá a um profissional de saúde, acompanhando a sua avó para
uma consulta. Verifique o tempo que o profissional olha para você e fala
com você, o mais novo, ao invés de dar atenção quem
foi procurá-lo. A desqualificação dos mais velhos parece
ser em decorrência da idéia de que quem é mais velho sempre
precisa de amparo. Amparar não é o mesmo que escorar. Dar amparo é acolher
a quem precisa (ética do abraço). Eles precisam ser respeitados
como todos, independente da idade cronológica ou aparência física.
Infelizmente, é muito difícil respeitar a escolha dentro do preceito
Kronos. No mito, Kronos castra o pai. A idade cronológica é também
castradora. Ela não determina nada a não ser limites e cerceamento à liberdade
do sujeito. Temos mais medo de sermos limitados pelos outros do que ficarmos
velhos. Ser velho não é o problema, e sim o que fazem conosco
quando somos mais velhos. Não queremos ser julgados e condenados pela
idade que temos. Por isso, as mulheres , especialmente, escondem números
etários nas profundezas das bolsas.
Se Kronos não estivesse em nossos calcanhares, exigindo pontualidade,
cobrando prazos, estabelecendo ritmos, estipulando metas, seríamos mais
humanos e menos máquinas de produção. Máquinas
enferrujam, enquanto gente envelhece. Desde cedo aprendemos que para sermos
aceitos dentro do cenário social temos de obedecer a Kronos. Ele é tão
severo e amedrontador que receamos ser devorado por ele. A fim de cumprir as
normas do tempo, se paga um alto preço, deixa-se de ser quem é para
fazer o trabalho que repete e repete, até chegar os dias enfadonhos
de nada acontecer da aposentadoria, que freqüentemente arremessa as pessoas
aos transtornos depressivos.
“Se eu tivesse mais tempo faria muito mais”. Comumente ouço
essa afirmativa das pessoas. Sempre penso, que tempo é esse que elas
procuram para “fazer” mais? Será que não fazemos
demais? O problema é que fazemos muito com pouca qualidade do tempo.
O tempo cronológico é ilusório, porquanto criado pelo
homem.
Existe um outro tempo que nos pertence denominado Kairós. Essa palavra
grega refere-se ao personagem mitológico que simboliza o movimento circular,
espiralado, não-linear. Kairós é um tempo não-consensual,
vivido e oportuno. Esse tempo pertence ao ser que se encontra na ação,
no movimento de passagem, mudança, fluxo. Enquanto o tempo Kronos é tempo-coisa,
o tempo Kairós é tempo-verbo. É o momento certo para o
que há para ser manifestado. É o tempo da história individual,
colorida pela escolha do sujeito. O tempo do ser é aproveitado, saboreado,
sentido, bem utilizado porque é o momentum que se tem e que se é.
Viver no próprio tempo é viver consigo mesmo. Esse é o
grande problema da velhice: saber que os movimentos do corpo diminuem para
que você não fuja de você mesmo. No livro “Envelhecer:
histórias, encontros e transformações”, uma mulher
de 86 anos faz um interessante relato:
“Durante a nossa juventude, estamos muito voltados para a vida externa.
Temos obstáculos no trabalho, na família, e aí vamos vencendo,
rompendo com as barreiras, e se vangloriando com as vitórias. Quando
chegamos na velhice, nós temos que enfrentar um dos maiores desafios:
o encontro com nós mesmos. É nesse momento que vamos nos encontrar
de verdade, vamos nos conhecer. Olhamos face a face para nós. Não é agradável
este encontro. Algumas vezes fico pensando se eu não tivesse feito isso
ou aquilo como teria sido a minha vida [...] O tempo é impossível
de ser captado. Só quando a gente vê um rapazinho que conhecíamos
quando criança, que percebemos que o tempo passou depressa.”
Durante a juventude estamos mais sob o domínio de Kronos, enquanto
na velhice é relevante aceitar Kairós, e reconhecer que ele é o
tempo da oportunidade, de cumprir o que ainda resta a ser cumprido. Pode parecer
estranho aos olhos de quem tem receio de Kronos, mas o tempo oportuno é o
Agora. Nada precisa ser planejado para o próximo ano, ou a segunda-feira
seguinte. Toda mudança inicia agora. Esse é o momento. Ele nos
pertence.
O tempo Kairós é a convergência de toda a nossa história
em um único plano, o aqui e agora. Nada irá acontecer, pois tudo
o que for preciso acontecer já está acontecendo. Por isso, Kairós é a
ocasião certa, a estação apropriada para ser o que somos
de fato.
O tempo Kairós está muito bem representado no Livro de Eclesiastes:
Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo
propósito debaixo do céu: há tempo de nascer, e tempo
de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de
matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar,
e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar
pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se
de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e
tempo de deixar ir; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado,
e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo
de paz.
Definir o velho pela passagem do tempo cronológico não é um
bom meio, porque toda grade de referência advém com qualidades
e valores e, conseqüentemente, métodos de julgamento. Ser julgado
por classificações estanques do tempo não é definir
o humano em sua complexidade. Isso condiz somente às máquinas.
Sendo assim, posso concluir que sou mesmo o velho, com 38, com 60 ou 98 anos
de idade cronológica.
No mito grego, Kronos era filho de Urano (Céu) e Géia (Terra).
Ambicioso, queria destronar Urano. Em batalha decepa os testículos do
pai e toma o lugar dele. Urano predisse que a história se repetiria,
um dos filhos de Kronos faria o mesmo. Quando Kronos toma conhecimento da profecia
passa a devorar os próprios filhos, exceto Zeus que consegue escapar
com a ajuda da mãe Réia. Finalmente, Zeus enfrenta o pai em batalha
e vence, destronando-o.
O Autor: Mestre em Gerontologia pela PUC-SP, Professor da Disciplina Saúde
do Idoso na UCP. Autor dos Livros: “Envelhecer ou Morrer, eis a questão”, “A
beleza do corpo na dinâmica do envelhecer”, “A mente e o
significado da vida”, “Quem somos nós? O enigma do corpo”, “Envelhecer:
histórias, encontros e transformações”, publicados
pela editora Gutenberg; e “Por que os sapos são verdes?” publicado
pela editora Cortez.
Home: www.pedropaulomonteiro.com
e-mail: pedro@pedropaulomonteiro.com
Bibliografia:
DILLON, Leo e Diane. To every thing there is a season. New York: Blue Sky
Press, 1998.
GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São
Paulo: Cultrix, 1982.
HESSE, Hermann. Sidarta. 38ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.
MONTEIRO, Pedro Paulo. Envelhecer: histórias, encontros e transformações.
2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.