ENTREVISTA COM O GOVERNADOR DO RJ, SR; SÉRGIO CABRAL SOBRE TERCEIRA IDADE E O PROJETO MATURIDADE
Concedida durante I Encontro da Maturidade Tres Rios, realizada pelo Projeto Maturidade

 

 
Somos sempre velhos
Autor deste artigo:
Pedro Paulo Monteiro

Somos sempre velhos
Por Pedro Paulo Monteiro

. Ao defender o envelhecimento como processo de viver, não raro, eu escuto: “você diz isso porque não é velho”. Será que não sou também o velho, apesar de ter 38 anos de idade cronológica? Será que estamos enganados sobre o tempo?
Envelhecer subentende atravessar o tempo. Viver é envelhecer, envelhecer é viver. A vida gera, alimenta, consome, e nos entrega à morte. Durante o processo de viver passamos por constantes ciclos de renovação. A cerimônia de renovação nos propicia o envelhecer. Quanto mais vivermos, mais velhos seremos. Todos conhecem a veracidade desse processo. A grande maioria das pessoas não o aceita, porque querem equivocadamente o “modelo de juventude eterna”. Ninguém pode escapar do processo natural do envelhecer, como nenhum humano pode voar por si mesmo porque não é natural voar. Nascemos com escápulas, mas elas são inábeis ao vôo, por isso ficaram presas ao tronco. Essa é a nossa natureza. Como todos sabem (mesmo que o nosso inconsciente não acredite), iremos morrer indubitavelmente. Sendo assim, ninguém pode viver sem experimentar a travessia, pois viver é fazer passagem. Como está escrito no majestoso portão de Bulund Darwaza na cidade de Fatehpu Sikri na Índia: “O mundo é uma ponte. Passe por ela, mas não construa seu lar nela”. Por essa razão, é preciso lembrar de aproveitar a grande celebração dos ciclos de renovação da vida cujo mestre de cerimônia é o tempo.
Vivemos em duas instâncias temporais: Kronos e Kairós.
A cronologia estuda o tempo em suas divisões e ordens de ocorrência de acontecimentos. Ela se referencia no modelo estático e analisável, ou seja, no modelo fragmentado e parcelado. O tempo Kronos é o tempo do relógio, um tempo-coisa com delimitações estanques e escalas numéricas. Ele é o tempo do fazer, do poder como dominação, das cercanias. Ele representa limites, é opressor, devorador de tudo o que cria . Kronos rejeita a escolha do sujeito. Estabelece quem é o mais velho ou o mais novo em termos numéricos, requer confirmação. Assim, se tenho 40 anos de idade e você 20, eu sou o mais velho. Numericamente serei sempre o velho de uma pessoa mais nova, como serei o mais novo de uma pessoa mais velha.
O tempo cronológico é objetivo, referenciado em números, contável. Sem dúvida, um número não traduz as idiossincrasias de um ser humano, mas a organização de uma sociedade requer ordem, certeza, constância, hierarquia. Nossa sociedade, por exemplo, foi construída na premissa de “ordem e progresso”, como está escrito na bandeira nacional. O positivismo lógico da expressão mostra que sem ordem não há progresso. Em termos lógicos é possível entender a expressão, porém no que diz respeito ao humano, à vida, ficamos distantes de uma asserção coerente.
Mesmo que tentemos ordenar para controlar, cercar, delimitar, o que é humano não pode ser medido, contado, estabelecido por regras estanques. Sem movimento de passagem o humano não é humano. O que é vivo só tem sentido quando é dinâmico. Assim, pela perspectiva do humano que envelhece, não existe progresso na ordem, porque como podemos ter progresso na repetição? Repetir é sofrer a espera de nada acontecer. A repetição só corrobora a idéia de que quem é velho não tem mais o que fazer, quem é novo tem ainda muito pela frente. Quem disse que temos muito pela frente? Você poderia responder: “é só saber contar”. Será que podemos confiar tanto em estatísticas? O tempo Kronos torna os dias repetitivos porque nada cria, torna os dias de espera longos e sem fim.
A Biologia da Evolução mostra que os fenômenos aleatórios dos genes nos possibilitaram ser o que somos. Como podemos ir adiante com a mesma estrutura? Se a espécie fosse sempre a mesma não poderíamos evoluir.
Para evoluir são necessárias novas alternativas. Por isso, sem renovar o aprendido continuaremos repetindo. Com a repetição nada se cria, tudo se copia. Tudo continua sendo o que sempre foi. Assim, podemos dizer que estar dentro das cercanias da ordem com relação às pessoas acima de 60 anos de idade é manter a idéia de que o velho é velho, problemático e pronto. Nunca saberemos o que fazer com eles. Será preciso saber o que fazer com eles? Isso é poder como dominação e não poder como possibilidade. O diálogo aberto é o caminho para o poder como possibilidade. Quando podemos por meio de nosso poder gerar poder no outro, formamos uma cascata interminável de feitos importantes para a sociedade.
Não é necessário decidir pelos velhos acima de 60 anos, a não ser que eles estejam demenciados, e não consigam tomar as próprias decisões. Se prestarmos atenção, verificaremos que as pessoas acreditam que o que as pessoas mais velhas falam é sem sentido. Vá a um profissional de saúde, acompanhando a sua avó para uma consulta. Verifique o tempo que o profissional olha para você e fala com você, o mais novo, ao invés de dar atenção quem foi procurá-lo. A desqualificação dos mais velhos parece ser em decorrência da idéia de que quem é mais velho sempre precisa de amparo. Amparar não é o mesmo que escorar. Dar amparo é acolher a quem precisa (ética do abraço). Eles precisam ser respeitados como todos, independente da idade cronológica ou aparência física. Infelizmente, é muito difícil respeitar a escolha dentro do preceito Kronos. No mito, Kronos castra o pai. A idade cronológica é também castradora. Ela não determina nada a não ser limites e cerceamento à liberdade do sujeito. Temos mais medo de sermos limitados pelos outros do que ficarmos velhos. Ser velho não é o problema, e sim o que fazem conosco quando somos mais velhos. Não queremos ser julgados e condenados pela idade que temos. Por isso, as mulheres , especialmente, escondem números etários nas profundezas das bolsas.
Se Kronos não estivesse em nossos calcanhares, exigindo pontualidade, cobrando prazos, estabelecendo ritmos, estipulando metas, seríamos mais humanos e menos máquinas de produção. Máquinas enferrujam, enquanto gente envelhece. Desde cedo aprendemos que para sermos aceitos dentro do cenário social temos de obedecer a Kronos. Ele é tão severo e amedrontador que receamos ser devorado por ele. A fim de cumprir as normas do tempo, se paga um alto preço, deixa-se de ser quem é para fazer o trabalho que repete e repete, até chegar os dias enfadonhos de nada acontecer da aposentadoria, que freqüentemente arremessa as pessoas aos transtornos depressivos.
“Se eu tivesse mais tempo faria muito mais”. Comumente ouço essa afirmativa das pessoas. Sempre penso, que tempo é esse que elas procuram para “fazer” mais? Será que não fazemos demais? O problema é que fazemos muito com pouca qualidade do tempo. O tempo cronológico é ilusório, porquanto criado pelo homem.
Existe um outro tempo que nos pertence denominado Kairós. Essa palavra grega refere-se ao personagem mitológico que simboliza o movimento circular, espiralado, não-linear. Kairós é um tempo não-consensual, vivido e oportuno. Esse tempo pertence ao ser que se encontra na ação, no movimento de passagem, mudança, fluxo. Enquanto o tempo Kronos é tempo-coisa, o tempo Kairós é tempo-verbo. É o momento certo para o que há para ser manifestado. É o tempo da história individual, colorida pela escolha do sujeito. O tempo do ser é aproveitado, saboreado, sentido, bem utilizado porque é o momentum que se tem e que se é.
Viver no próprio tempo é viver consigo mesmo. Esse é o grande problema da velhice: saber que os movimentos do corpo diminuem para que você não fuja de você mesmo. No livro “Envelhecer: histórias, encontros e transformações”, uma mulher de 86 anos faz um interessante relato:

“Durante a nossa juventude, estamos muito voltados para a vida externa. Temos obstáculos no trabalho, na família, e aí vamos vencendo, rompendo com as barreiras, e se vangloriando com as vitórias. Quando chegamos na velhice, nós temos que enfrentar um dos maiores desafios: o encontro com nós mesmos. É nesse momento que vamos nos encontrar de verdade, vamos nos conhecer. Olhamos face a face para nós. Não é agradável este encontro. Algumas vezes fico pensando se eu não tivesse feito isso ou aquilo como teria sido a minha vida [...] O tempo é impossível de ser captado. Só quando a gente vê um rapazinho que conhecíamos quando criança, que percebemos que o tempo passou depressa.”

Durante a juventude estamos mais sob o domínio de Kronos, enquanto na velhice é relevante aceitar Kairós, e reconhecer que ele é o tempo da oportunidade, de cumprir o que ainda resta a ser cumprido. Pode parecer estranho aos olhos de quem tem receio de Kronos, mas o tempo oportuno é o Agora. Nada precisa ser planejado para o próximo ano, ou a segunda-feira seguinte. Toda mudança inicia agora. Esse é o momento. Ele nos pertence.
O tempo Kairós é a convergência de toda a nossa história em um único plano, o aqui e agora. Nada irá acontecer, pois tudo o que for preciso acontecer já está acontecendo. Por isso, Kairós é a ocasião certa, a estação apropriada para ser o que somos de fato.
O tempo Kairós está muito bem representado no Livro de Eclesiastes:

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deixar ir; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Definir o velho pela passagem do tempo cronológico não é um bom meio, porque toda grade de referência advém com qualidades e valores e, conseqüentemente, métodos de julgamento. Ser julgado por classificações estanques do tempo não é definir o humano em sua complexidade. Isso condiz somente às máquinas. Sendo assim, posso concluir que sou mesmo o velho, com 38, com 60 ou 98 anos de idade cronológica.

No mito grego, Kronos era filho de Urano (Céu) e Géia (Terra). Ambicioso, queria destronar Urano. Em batalha decepa os testículos do pai e toma o lugar dele. Urano predisse que a história se repetiria, um dos filhos de Kronos faria o mesmo. Quando Kronos toma conhecimento da profecia passa a devorar os próprios filhos, exceto Zeus que consegue escapar com a ajuda da mãe Réia. Finalmente, Zeus enfrenta o pai em batalha e vence, destronando-o.

 

O Autor: Mestre em Gerontologia pela PUC-SP, Professor da Disciplina Saúde do Idoso na UCP. Autor dos Livros: “Envelhecer ou Morrer, eis a questão”, “A beleza do corpo na dinâmica do envelhecer”, “A mente e o significado da vida”, “Quem somos nós? O enigma do corpo”, “Envelhecer: histórias, encontros e transformações”, publicados pela editora Gutenberg; e “Por que os sapos são verdes?” publicado pela editora Cortez.
Home: www.pedropaulomonteiro.com
e-mail: pedro@pedropaulomonteiro.com

Bibliografia:

DILLON, Leo e Diane. To every thing there is a season. New York: Blue Sky Press, 1998.

GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo: Cultrix, 1982.

HESSE, Hermann. Sidarta. 38ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.

MONTEIRO, Pedro Paulo. Envelhecer: histórias, encontros e transformações. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

 

 

 

 

 


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